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Papai noel, eu quero um smartphone ou um tablet!

Por: David Wang e Giovana Del Prette

17 de Dezembro de 2015

Há vinte anos os Correios fazem uma campanha de Natal chamada “Adote uma Cartinha”. Desde então, em todo final de ano, os Correios recebem cartas enviadas “para o Papai Noel” e deixam disponíveis para o público. As pessoas podem ler as cartas e apadrinhar um pedido, enviando o presente em nome do Papai Noel.

O que as crianças mais pedem de Natal?

Ontem estivemos em uma agência dos correios e lemos diversas cartas – dezenas delas! Então percebemos uma curiosidade marcante: mais da metade das cartas pedia smartphones ou tablets de presente de Natal, independentemente da idade da criança. Aquela expectativa de encontrar pedidos pelo novo boneco do homem-aranha (que nunca sai de moda) ou um novo tabuleiro de Jogo da Vida foi esmagada pelo desejo por equipamentos eletrônicos.

Mais da metade das cartas pedia smartphones ou tablets de presente de Natal.

A mudança na relação que hoje as crianças têm com seus brinquedos pode ter diversas explicações. Em termos de praticidade, com um smartphone ou tablet pode-se ter uma infinidade de jogos à disposição num único aparelho, ao passo que brinquedos considerados mais “rústicos” demandam espaço, cuidados e organização.

Mas outra explicação, de ordem social, é o quanto fazer parte do mundo virtual tem se tornado uma necessidade básica, e não ter tal oportunidade na palma da mão é segregador. Infelizmente, mesmo entre crianças, critérios como status e popularidade podem ser o primeiro filtro para ser aceito num grupo – e, assim como em outros meios sociais, “ter” significa “poder”. E, independentemente de status, a criança que não souber o que é Minecraft pode de fato ficar de fora das conversas, assim como a criança que não tiver um smartphone não estará no grupo de Whatsapp da turma.

Além desses eletrônicos permitirem um maior número de possibilidades práticas e sociais, o que isso gera na convivência em casa?

Não é incomum que pais façam uso de objetos como forma de evitar ou apaziguar alguma situação indesejada. Pense numa chupeta: sua função é fazer a criança parar de chorar por conta do desconforto causado pelo processo de dentição e ajudá-la a ficar mais tranquila.

Smartphones e tablets são as chupetas da nova geração. Oferecidos inclusive para distrair e acalmar bebês, os jogos e redes sociais entretêm os pequenos (e os não tão pequenos) em situações de tédio inescapável que podem virar uma dor de cabeça. É o caso daquela longa viagem de carro ou avião, ou mesmo da impossibilidade de sair de casa ou brincar na rua (seja por questão de segurança ou falta de opções).

Até aí tudo bem. É fato que nem sempre pais conseguem brincar com seus filhos, por precisarem trabalhar, cuidar da casa ou por terem seus próprios interesses pessoais. Então, dar-se conta de que a irritação de um filho entediado se dissolve assim que ele começa a jogar a Corrida dos Minions pode parecer um incrível truque de mágica para pais cansados ou atarefados.

Smartphones e tablets são as chupetas da nova geração.

Diante desse efeito poderoso, é comum que smartphones e tablets passem a funcionar como moeda de troca, negociando-se o ganho ou a perda do aparelho caso a criança cumpra seus deveres ou desobedeça. A curto prazo pode funcionar, dando a impressão de que a criança aprendeu a obedecer os pais. Será?

No fim das contas, o que temos é um ciclo que se perpetua: as crianças acabam preferindo o aparelho eletrônico ao invés do tédio; os pais acabam preferindo dar o aparelho ao invés de ouvir reclamações, birras ou terem mais trabalho para lidarem com o “problema”.

Daí façamos mais uma pergunta: se as crianças (e pais!) passam tanto tempo nos aparelhos eletrônicos, como isso afeta as brincadeiras e os relacionamentos familiares no dia-a-dia?

É notório o impacto que a presença de tais equipamentos gerou no ambiente familiar, criando uma situação em que nem os pais e nem as próprias crianças sabem como brincar de maneira criativa e espontânea. Não estão aproveitando o espaço físico, nem movimentando o corpo, nem usando a imaginação. Ao invés disso, vivem num mundo virtual, estáticos, movimentando somente os dedos sobre uma tela. Enquanto estão vidrados nos eletrônicos, pais e filhos se olham cada vez menos, conversam cada vez menos e, enfim, convivem cada vez menos.

Então, o que as crianças de fato estão aprendendo? Estão aprendendo que ter acesso aos eletrônicos é o que realmente importa! Desconfortos como o do tédio precisam ser solucionados imediatamente! Estamos criando crianças que não conseguem tolerar um período curto de tédio, desejando constantemente as recompensas mais imediatas e mais fáceis. E, do outro lado, vemos pais sem paciência nem traquejo para manejar problemas que não podem ser resolvidos imediatamente, sendo então montado um cenário de frustração contínua.

Enquanto estão vidrados nos eletrônicos, pais e filhos se olham cada vez menos, conversam cada vez menos e, enfim, convivem cada vez menos.

De ambos os lados, parece restar às relações familiares somente a parte chata: pais tendo um monte de ordens e broncas para dar; crianças achando insuportável ouvir e obedecer. Faça lição, coma tudo, tome seu banho, escove seus dentes, vá já pra cama! Depende… se você me der o tablet, eu até faço.

Quando já estabelecido, este cenário traz um paradoxo importante: as crianças, acostumadas a pedirem os eletrônicos ao invés da atenção dos pais, passam a optar preferencialmente pelos aparelhos. Os pais, acostumados a darem eletrônicos ao invés de atenção, acham normal a escolha da criança.

De ambos os lados, parece restar às relações familiares somente a parte chata. Quando um dos dois tenta quebrar o ciclo, muitas vezes o outro não entende e reage mal ou ignora, comunicando: Estou sem tempo! Não vê que estou ocupado? Ei, devolve meu jogo! Agora não! Os pais, ressentidos, nos confidenciam: meu filho não gosta de brincar comigo, não gosta de ficar comigo, parece que nem gosta de mim.

Os filhos, ressentidos, nos confidenciam: meus pais não gostam de brincar comigo, não gostam de ficar comigo, parece que nem gostam de mim.

 

Em tempo:

• Em São Paulo, o apadrinhamento de uma cartinha de Natal vai até dia 18 de Dezembro de 2015. Saiba mais aqui.

• Vai dar um presente para uma criança? Sugerimos que dê um jogo ou brinquedo que se possa brincar junto. E brinque, mas brinque muito!!!

• Quer ouvir das crianças o que elas realmente querem ganhar de Natal dos pais? Assista:

 

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O texto acima possui caráter exclusivamente informativo. Jamais empreenda qualquer tipo de tratamento ou se automedique sem a orientação de um especialista.