Acácia - Psicologia & Psiquiatria

A empatia e a infinita possibilidade de ver o outro

Por: David Wang*, psicólogo

– “Me explica uma coisa, você viu a notícia no jornal hoje? Por que alguém faria algo como aquilo?” – É uma das coisas mais comuns de se ouvir no dia-a-dia, seja dentro ou fora do contexto clínico. A busca por entender a ação do outro é uma pergunta feita ao longo das gerações de diferentes maneiras, e se torna cada vez mais evidente, ao passo de que a velocidade de transmissão de informação aumenta. O volume de informação e os diversos contextos em que as situações ocorrem estão cruzando nossa vida em uma velocidade muito mais rápida do que nossa própria habilidade de pesquisar e entender com calma tudo aquilo que ocorre.

Junto a isso, a possibilidade de resposta também aumentou em um nível quase imensurável! Antes, a informação que recebíamos se restringia a alguns veículos de informação que não necessariamente exporiam a nossa opinião caso desejássemos comunicá-la de alguma maneira. Estas duas situações combinadas geraram um problema completamente novo:

 

Como entender e me comunicar com o mundo?

Pensando de maneira puramente concreta, nunca houve tanta possibilidade de nos comunicarmos e explorarmos como hoje. O contato entre diferentes gerações, culturas e contextos podem acontecer em um piscar de olhos, entretanto, como podemos entender tudo isso e encaixar tais conhecimentos dentro da nossa própria vida?

“Não é algo tão difícil, a gente só tem que tentar entender melhor!”. É uma boa resposta; de fato, a compreensão daquelas novas informações é uma parte essencial desse processo. Mas falta, neste comentário ,uma habilidade importante.

 

Empatia

“Ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias. Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende etc” (Fonte).

Usando de um olhar empático, torna-se mais possível entender aquele novo contexto, agora não só de maneira concreta, mas também emocional. Veja: com a velocidade dos meios de comunicação, por vezes não temos tempo de pensar nas coisas com calma, e acabamos por olhar para o dado mais rápido de ser interpretado: o dado concreto, duro, aquele que está claramente na sua frente, e a partir disso, colocarmos nossos próprios valores naquilo.

Em tendência, esse tipo de coisa gera antagonismos. Não importa se é uma decisão importante para o futuro do país como em quem votaria para ser o próximo governante, ou se devemos chamar o alimento farináceo de bolacha ou biscoito. Ao olharmos rapidamente para algo, instantaneamente agregaremos nossos valores.

– “Mas isso é errado? Eu colocar meus valores em uma situação?” – Claro que não. Acredito que todos faremos isso ao longo do tempo. O importante de se ressaltar é, na verdade, o fato de que quando agregamos tal valor, isso gera um antagonismo ou um distanciamento da compreensão real daquele fato.

Usemos o famoso bolacha contra biscoito. Independente da resposta certa, uma pessoa pode ter sido ensinada pelos pais, desde pequena, que aquele alimento teria o nome de bolacha e, nesse contexto, pelo seu histórico de vida, seria esse o nome. Por outro lado, outra pessoa pode ter sido ensinada a chamar de biscoito pelo irmão mais velho, que faria uma piada usando o termo bolacha como um breve safanão na parte posterior da cabeça. Se estas duas pessoas ficarem discutindo, nunca chegarão a alguma conclusão. Mais ainda, se receberem a resposta concreta de alguém que sabe de fato a termologia correta, uma se decepcionará mas, por conta de uma história emocional, não necessariamente parará de usar o termo considerado errado.

Neste cenário, se alguém com algum conhecimento das duas pessoas e um pouco de empatia consegue entender por que aquela briga por algo tão pequeno, talvez a expressão desse entendimento interrompa aquilo antes que piore. Por vezes nos falta esta habilidade: de ouvir com um pouco mais de coração, não para tomar uma opinião sobre algo, mas para entender.

A empatia é Identificação de um sujeito com outro; quando alguém, através de suas próprias especulações ou sensações, se coloca no lugar de outra pessoa, tentando entendê-la. Competência emocional para depreender o significado de um objeto, geralmente de um quadro, de uma pintura etc. Faculdade para idealizar ou traçar a personalidade de alguém, projetando-a num dado objeto, de maneira que tal objeto pareça estar indissociável desta.

Ter empatia é a melhor maneira que temos de entender os outros e o mundo. Isso não significa deixarmos sempre nossas opiniões de lado. Do mesmo jeito que seria importante eu ter empatia por você, a recíproca também seria verdadeira! Fazendo isso, podemos entender o que está acontecendo, ou pelo menos buscar chegar o mais perto da compreensão que conseguirmos e discutir a situação com calma, de maneira a tentar chegar sempre na melhor solução.

Ao fazermos isso, nos conectamos com o mundo de verdade, com os outros, e passamos a gerar uma possibilidade de crescimento para si e para outro. Haverá vezes que não será a tarefa mais fácil ser empático, e haverá vezes que ser empático irá até mesmo diretamente contra os valores pessoais que cada um tem dentro de si. Mas se dê uma chance de realmente enxergar o outro, e quem sabe assim também não seja mais fácil enxergar a si mesmo.

Um pequeno vídeo para ilustrar:

(Legendas em português já inclusas!)

 

* David Wang é psicólogo da equipe ACACIA Psicologia & Psiquiatria. É especialista em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Tem experiência no atendimento em psicoterapia para adultos e adolescentes com dificuldades relacionadas a Depressão, Esquizofrenia, Transtorno Bipolar, TDAH, Transtornos do Impulso, Transtornos de Personalidade e Uso de Drogas. É psicólogo colaborador de pesquisa no HC-USP.

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O texto acima possui caráter exclusivamente informativo. Jamais empreenda qualquer tipo de tratamento ou se automedique sem a orientação de um especialista.