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Comunicação virtual e os sentidos do sentir

Por: Giovana Del Prette e David Wang

Duas pessoas conversando:

Caio: “Poxa, fui lá tentar falar com a Isabela, né… e já fazia um tempo que não conversávamos.”

Daniel: “E aí, como foi?

Caio: “Sei lá, ela nem me deu muita bola, fiquei meio irritado e desencanei.”

 

Agora, colega leitor, me responda uma pergunta simples: você por algum acaso imaginou em algum momento que a conversa entre Caio e Isabela pode não ter acontecido pessoalmente?

Do sinal de fumaça até os aplicativos de mensagem

Antes de inventarmos qualquer meio de comunicação, a única maneira de manter contato com alguém era por meio do contato direto, ao vivo e em pessoa. Se você quisesse conversar com um familiar que mora em outra cidade, inevitavelmente teria que simplesmente ir até lá e encontrá-lo.

Com o progredir da história, foram surgindo métodos que facilitavam esta comunicação à distância, principalmente em torno da escrita. Entretanto, por conta da necessidade de transportar as cartas do remetente ao destinatário, ainda era uma tarefa que demorava um longo tempo e por vezes sequer era entregue.

A invenção do telefone por Alexander Graham Bell, em 1876, bem como a disseminação de seu uso ao longo das décadas, facilitou muito a comunicação interpessoal. Com a popularização e evolução deste dispositivo – passando de telefone com fio, sem fio, até chegar nos celulares – foi ficando cada vez mais simples ter contato com alguém distante e, principalmente, à distância. O telefone e o celular possibilitaram uma comunicação imediata, mas com o ônus de se perder o contato físico: não se vê nem se toca o interlocutor.

Adiante em nossa linha do tempo, temos o desenvolvimento do contato virtual. A disseminação dos e-mails, a popularização de chats, o nascimento de programas de mensagem instantânea (ICQ ou MSN foram os mais populares no Brasil), de fóruns e finalmente de redes sociais – tudo isso tornou os ambientes virtuais repletos de oportunidades de comunicação para a população. Entretanto, ainda havia algum tipo de restrição em função dos altos custos para se fazer ligações à distância, para se enviar torpedos e para se ligar a internet (quem se lembra da lentíssima internet discada, que só custava “um pulso” após a meia-noite?). E havia ainda uma restrição física, por precisarmos dos computadores de mesa (desktop), e da conexão destes a fios para termos internet.

Foi com o surgimento e disseminação das redes 3G e WI-FI, junto à popularização dos Smart Phones, que a comunicação virtual tomou proporção impressionantes. Todos estes pequenos universos de comunicação que eram restritos por um motivo ou outro passaram se tornar presentes a despeito do tempo e do espaço. Hoje, ao invés de precisar voltar para casa para adicionar alguém em uma rede social, pode-se fazê-lo imediatamente caso se disponha do aplicativo e de uma conexão razoável à internet.

Antes, acabava sendo possível manter contato apenas com as pessoas que eram próximas, moravam junto ou na região, trabalhavam também em situações similares ou frequentavam os mesmos lugares. Aquele amigo de colégio que foi morar em um país asiático obscuro não iria ser visto de novo; talvez você lembrasse dele em uma noite de tédio, mas dificilmente conseguiria obter seu endereço para enviar uma carta ou até visitá-lo. E aquela pessoa que você conheceu brevemente em uma viagem de ônibus? Como reencontrá-la se você esqueceu de perguntar por um telefone ou endereço?

Hoje, as possibilidades e facilidades criadas por isso são infinitas, e geram uma miríade de novas situações que antes não teríamos que considerar. Como conseguimos manter conversas com as pessoas sem vê-las ou ouvi-las, apenas lendo o conteúdo escrito que ela usa para responder? E como damos conta de manter tantos contatos ao mesmo tempo, independente da distância real?

#mudançastecnológicas       #novojeitodesecomunicar      #omundodehoje

Estamos então vivendo um período em que estes longos espaços de tempo sem contato e essa dificuldade de alcançar o outro foram praticamente anulados. A maior parte da população hoje usa smartphones, e faz cada vez menos ligações. Acabamos preferindo a troca de mensagens, que pode ser feita enquanto nos locomovemos, enquanto vemos TV, comemos ou até mesmo enquanto estamos conversando ao vivo com outras pessoas. É mais eficiente, e não corremos o risco de “atrapalhar” o outro, pois quando ele puder, responde de volta por escrito.

Com tamanha eficiência na comunicação, a energia e o tempo que antes despendíamos para manter o contato com um número de pessoas que, na maioria das vezes, você podia contar com os dedos das mãos (e dos pés caso fosse uma pessoa extremamente sociável), agora acaba sendo dividida para manter o contato com um número de pessoas maior que a quantidade de ossos que do corpo humano!

Surgem então novas situações, oportunidades e problemas que até então, não havíamos sequer considerado. O primeiro problema é que se temos tanta gente para nos comunicar, enquanto fazemos outra coisa simultaneamente, a qualidade da atenção que dispendemos ao outro tem grandes chances de cair.

Outra questão que nasce da comunicação virtual é: como transparecer emoção quando escrevemos, fazendo com que aquele que não nos conhece entenda o sentimento por trás daquela fala? E como decifrar ou inferir a emoção do outro quando só temos acesso a letras escritas e no máximo “emoticons”? Ou seja, se desprender do tempo e do espaço para a comunicação social também tem seu preço. Perde-se a dimensão do tom de voz, do toque e das expressões faciais. Perde-se a precisão da resposta imediata. As conversas truncadas, com horas de intervalo entre uma frase e outra, passam a ser o normal. Como saber se a falta de resposta foi porque o outro não está afim de você, ou simplesmente está ocupado?

Mudando o ritmo do contato e aumentando o número de opções, mudam também as estratégias para lidar com determinadas situações. A clássica história da vergonha de falar com aquela pessoa atraente com quem você não tinha tanto contato, com medo de falar alguma besteira ou gaguejar excessivamente, agora é substituída por uma adicionada no Facebook e/ou algumas mensagens no WhatsApp. Mesmo assim, falta coragem por se tratar de alguém do seu ambiente social? Tudo bem, temos aplicativos como Tinder, que aumentam a possibilidade de você “dar match” com alguém, sem medo de tomar um fora.

Em suma, a comunicação virtual enriquece nossa vida prática à mesma medida em que seca nossa vida subjetiva. A troca afetiva que obtemos por meio de conversas virtuais nunca irá chegar aos pés do retorno que poderíamos obter quando olhamos nos olhos. Mas, como é mais fácil, como é melhor do que nada, como é imediato, caímos na tentação de insistir, e nos frustramos num eterno círculo vicioso, difícil de ser quebrado. Você certamente já esteve na pele de ao menos um dos três personagens do início dessa história. Caio buscava contato e se frustrou. Isabela por algum motivo, que nunca saberemos, não escreveu de volta, e sequer saberá que frustrou Caio. Daniel, por sua vez, ouviu tudo com naturalidade, como se a abordagem ao vivo fosse substituível pela virtual.

Tente se dar de presente um dia todo por semana com os eletrônicos desligados, e verá do que estamos falando. Você provavelmente notará que pensa demais se tem alguma novidade no mundo virtual que você está perdendo. Terá mais trabalho para falar com as pessoas, sim, e talvez se incomode se tiver que ligar para alguém. Talvez você se encontre frente a frente com alguém que irá te ignorar para mexer no Smartphone. Mas talvez também você experimente uma agradável sensação de liberdade ao se surpreender que não precisa prestar contas da sua vida o tempo todo ao Smartphone como se ele fosse seu chefe, nem muito menos monitorá-lo o tempo inteiro como se ele fosse seu bebê. Ainda que você esteja mais restrito no tempo e no espaço, ou justamente por isso, estará mais atento e mais inteiro no aqui e no agora.

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O texto acima possui caráter exclusivamente informativo. Jamais empreenda qualquer tipo de tratamento ou se automedique sem a orientação de um especialista.